* Roberto Sandoli

O relatório mensal do USDA de outubro teve um tom neutro. Ao contrário do observado na soja e no milho, para o cereal de inverno o foco do relatório não ficou no balanço norte-americano, mas sim na mudança de estimativa para outros grandes exportadores de trigo. Devido à baixa condição hídrica durante o desenvolvimento do cereal, o USDA reduziu novamente a estimativa de produção da Rússia, atual maior exportador de trigo do mundo.

A produção ficou estimada em 70 milhões de toneladas, recuo de 1 milhão de toneladas em comparação ao esperado no mês anterior e volume que já representa uma quebra de 17,6% frente à produção recorde de 85 milhões de toneladas colhidas em 2017/18. Apesar da quebra de safra, a exportação da Rússia segue estimada em 35 milhões de toneladas, o que deve garantir que o país siga como o principal exportador. O mercado também tem sido afetado por rumores de que o governo russo irá limitar as exportações em 30 milhões de toneladas, para garantir oferta e impedir uma explosão de preços no mercado interno, consequentemente impactando o mercado mundial.


A Austrália, grande exportador de trigo de alta proteína e que compete diretamente com EUA e Canadá, sofreu um novo corte, de 1,5 milhão de toneladas, em sua estimativa de produção, que agora deve ser de 18,5 milhões de toneladas. A quebra de 13,1% na oferta devido ao clima seco também deve refletir na capacidade de exportação australiana, reduzida novamente pelo USDA e prevista em 13 milhões de toneladas. Os ajustes neste mês fizeram com que a relação estoque/uso da Austrália caísse para 16,2%, quase 9% a menos em relação ao ciclo 2017/18.

Com os ajustes, o balanço global do trigo na safra 2018/19 ficou levemente mais altista este mês, com a previsão de oferta recuando em 2 milhões de toneladas para 730,9 milhões e a expectativa de estoques finais caindo 1,1 milhão de toneladas e atingindo 260,2 milhões de toneladas, volume de estoques 5,34% menor frente ao ciclo anterior.

 

MERCOSUL – Umidade elevada no sul do Brasil está comprometendo a safra

O clima tem afetado a produção do Brasil e da Argentina nas últimas semanas, fazendo com que as estimativas sejam revisadas negativamente. Para a Argentina, que enfrentou seca em algumas regiões produtoras, as bolsas já reduziram suas estimativas em 2 milhões de toneladas, de 21 para 19 milhões de toneladas.

A colheita já começou na Argentina e está a 2,8%, com rendimento muito aquém do esperado, o que, de certa forma, confirma o impacto da seca nessa região (NOA, NEA). O volume colhido, de 300 mil toneladas, apresentou rendimento de apenas 1,45 tonelada por hectare, mas espera-se que, conforme a colheita avance para o centro e sul essa média aumente. Porém, o potencial de produção já foi reduzido por praticamente todo o mercado, e a produção agora varia entre 19 e 20 milhões de toneladas, contra 21 milhões do mês anterior.

Para o Brasil, mesmo que a CONAB ainda não reconheça uma perda mais significativa, já é consenso do mercado que o Paraná não deve produzir mais que 2,5 milhões de toneladas para esse ciclo. Dessa forma, a estimativa de produção para o Brasil encontra-se em 5 milhões de toneladas, segundo a FCStone, número que pode ser revisado devido a chuvas constantes no final da colheita do Paraná. Relatos recentes apontam trigos com baixo F.N., baixo rendimento e casos de doenças como Giberela em algumas áreas devido ao excesso de chuvas.

Nos meses de setembro e outubro, a precipitação acumulada ficou mais de 50mm acima do normal para o período, e o Paraná ainda se encontra sob alerta de chuvas para os próximos dias. No sul do estado, a colheita deveria ser intensificada na última semana de outubro e no início de novembro.

No Rio Grande do Sul, a colheita está perto de 20% e avançando bem no momento, com alguns relatos de toxinas acima do nível permitido e F.N. um pouco baixo. Ofertas pontuais se encontram perto dos R$700, mas esse nível de preço está muito abaixo da paridade de importação e não deve se manter assim por muito tempo. A perspectiva de produção é de 1,8 milhão de toneladas para o estado, um pouco acima das estimativas da CONAB, de 1,69 milhão de tonelada. Também se estima que o estado já teria um volume aproximado de 400/500 mil toneladas comprometidas com a exportação, o que poderia causar maior demanda por trigo importado.


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