Pesquisador da Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária destaca importância de controle na pré-colheita e armazenagem. Na moagem, equipamentos como o Sortex contribuem para diminuir os níveis de contaminação

 

A Resolução 07/2011 da Anvisa vem mobilizando os moinhos em relação à redução dos limites máximos tolerados (LMT) dos níveis de micotoxina Desoxinivalenol (DON). Em 1º de janeiro deste ano passaram a vigorar os novos LMT de 750 ppb (partes por bilhão) de micotoxina Desoxinivalenol para produtos derivados de trigo (farinha, massa, crackers, biscoitos e pão); 1000 ppb na farinha integral, trigo para quibe e farelo de trigo; e 3000 ppb no trigo em grão para posterior processamento.

As micotoxinas são substâncias tóxicas produzidas por algumas espécies de fungos. No trigo, a principal forma de contaminação é o DON, associado à incidência de fungos do complexo Fusarium graminearum, causadores da doença conhecida por giberela ou fusariose, frequente nas lavouras de cereais de inverno no Sul do Brasil. A ocorrência de DON na fase de produção depende, na maioria das vezes, das condições climáticas, sendo favorecida por temperaturas amenas e alta umidade.

Para debater o assunto, nossa reportagem ouviu o engenheiro agrônomo Juliano Luiz de Almeida, pesquisador da FAPA (Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária) da Cooperativa Agrária Agroindustrial – empresa associada ao Sinditrigo-PR. Confira a seguir:

Que impactos essa redução dos limites máximos tolerados (LTM) de micotoxina Desoxinivalenol (DON) traz?
Juliano Luiz de Almeida – A redução tem impacto para todos os elos da cadeia produtiva e afeta diretamente os moinhos, principalmente aqueles que se abastecem com trigos cultivados nas regiões localizadas no meio do Paraná para o sul do Brasil. Este problema também pode ocorrer em trigos oriundos do Uruguai, Argentina e Chile. Os moinhos que eventualmente importam- matéria-prima de países de hemisfério norte com EUA e Canadá também devem se certificar dos níveis de DON, pois nestes países este problema é recorrente.

Quais as estratégias de controle mais eficientes dessa questão, na sua avaliação?
Juliano Luiz de Almeida – A micotoxina Desoxinivalenol (DON) é um problema que vem do campo, não é criado na armazenagem ou no moinho. O ideal então é estabelecer estratégias para controlar a doença no campo e depois para mitigar quando está na fase de armazenagem.

E quais são as orientações gerais para a fase pré-colheita?
Juliano Luiz de Almeida – Resumidamente, podemos citar o planejamento da lavoura, com preferência para materiais tolerantes à giberela, e o escalonamento da época da semeadura. A aplicação de fungicidas também é bastante efetiva. Trata-se de uma questão bastante técnica e a grande maioria dos agrônomos já conhece essa tecnologia. Outro ponto é que grande parte dos grãos contaminados podem ser expulsos ainda no campo, no momento da colheita, pelo uso do aumento do vento da colheitadeira, visto que os grãos contaminados são mais leves. A colheita será menor, mas com mais qualidade de produção.

E depois, na armazenagem?
Juliano Luiz de Almeida – Aqui é importante ressaltar a importância da amostragem tecnicamente muito bem feita pra teores de DON, conforme indicações da ABNT e da Embrapa. E, dependendo da classificação, é feita a segregação das cargas.
Essa segregação das cargas contaminadas das não contaminadas também é fundamental para que mais tarde o moageiro possa fazer os seus blends e dar destinação correta aos grãos mais contaminados. Mas, isso deve ser muito bem amarrado em contratos com os produtores de trigo para evitar disputas judiciais devido por questão de não recebimento de carga ou aplicação de altos descontos.
Na unidade armazenadora – como em todos os casos – o ar deve ser bem seco, com baixa umidade. Na pré-limpeza, havendo incidência do DON, um grande volume de grãos giberelados podem ser descartados, antes mesmo de ir para armazenagem.
Outro ponto é que quem tem estrutura com silos menores sai ganhando. Isso porque o moinho pode fazer lotes de trigos em diferentes níveis de contaminação e vai decidindo o que pode fazer em termos de blend e misturas de lotes.
No caso do moinho da Cooperativa Agrária, temos uma especificação de LMT bem mais baixa que a da legislação, justamente para não levar o problema para dentro da empresa.

Na moagem, quais equipamentos mais comumente usados para descartar os grãos contaminados?
Juliano Luiz de Almeida – Os principais equipamentos para diminuir os níveis de contaminação são os Sortex, que eliminam os grãos de cores diferentes. Grãos giberelados têm coloração rosa, salmão ou branca. Outra tecnologia é o peeling, que elimina a camada externa do grão onde se concentra a maior parte das micotoxinas, embora possam estar também dentro dos grãos.

Que estratégias o moinho da Cooperativa Agrária vem utilizando?
Juliano Luiz de Almeida – No campo, as estratégias pré-colheita tiveram que ser construídas em parte utilizando tecnologias já desenvolvidas em outras partes do mundo e adaptadas a uma condição que é muito mais favorável ao fungo. Mais especificamente, nós desenvolvemos um sistema de alerta de doenças chamado RADAR, pelo qual avisamos aos cooperados da Agrária se a condição para o desenvolvimento da doença é favorável dando a indicação do melhor momento para fazer o controle químico da giberela. Os agricultores também tiveram que se adaptar em termos de equipamentos e de mudança de atitude com relação ao monitoramento das lavouras.
Já os moinhos tiveram que investir em um número maior de moegas e de silos menores para fazer segregação dos lotes, em equipamentos mais sofisticados de limpeza de grãos – em Sortex que eliminam grãos por cor – e em equipamentos de peeling que fazem o polimento externo dos grãos de trigo.

Na sua avaliação, a resolução da Anvisa trouxe um avanço importante para o setor no que diz respeito à proteção da saúde humana?
Acredito que trouxe, sim, uma proteção importante. É um problema que teria que ser enfrentado cedo ou tarde por todos os elos da cadeira produtiva. Se realmente o Brasil quer ser um grande produtor de alimentos, tem que encarar de frente, sem medo, e não ter receio de produzir alimentos sem presença de micotoxinas. Grande parte da legislação aborda somente o DON, mas temos um número bem maior de toxinas sobre as quais o Brasil ainda não tem legislação, ao contrário de outros países europeus e dos Estados Unidos e Canadá, que já contam com legislação específica. Num futuro próximo teremos legislação para outras toxinas também.

 

Por Cristina Luchini – Jornalista