As projeções do agronegócio brasileiro, feitas pela Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, apontam que o Brasil continuará sendo um país importador de trigo por, pelo menos, os próximos 10 anos. Quebrar essas projeções é o grande desafio das instituições que atuam em ciência, tecnologia e inovação no País, tanto públicas quanto privadas, na avaliação do pesquisador Gilberto Cunha, da Embrapa Trigo. A triticultura brasileira evoluiu muito nos últimos anos, segundo ele, mas ainda há um longo caminho a ser trilhado na próxima década.

“A curto prazo, o trigo continuará sendo cultivado principalmente na região de clima temperado do sul do Brasil”, observa ele. Entretanto, o cerrado, com suas grandes áreas ora em exploração agrícola, está no radar da pesquisa. Cunha relata que hoje se produz trigo nessa região de clima tropical, com excelentes rendimentos no sistema irrigado, mas pouco potencial de expansão pela menor competitividade, devido aos altos custos de produção, limitações na disponibilidade de água e energia e menor competitividade com outros produtos de maior valor de mercado, caso de hortaliças e feijão, por exemplo.

O avanço da cultura do trigo no cerrado, no sistema de cultivo em sequeiro, ainda esbarra em dois obstáculos, explica o pesquisador: solução para o problema da brusone, uma doença que afeta drasticamente a produtividade e qualidade e é típica da região tropical; e a intolerância do trigo ao calor e à seca. “A pesquisa tem trabalhado nessa área, buscando criar cultivares com essas características. Já houve muitos avanços, quando se compara com o que havia há alguns poucos anos”.  O desafio do momento é inserir o trigo após a colheita da soja e do milho, com semeaduras no final e começo de março, aproveitando o final da estação chuvosa no Centro do Brasil, que pode se estender até o início do mês de abril, dependendo da região.

Minas Gerais vem se consagrando como novo polo de triticultura no Brasil. Depois do Paraná e do Rio Grande do Sul, é o principal estado produtor de trigo e com potencial de expansão. A localização de Minas Gerais, pela proximidade do principal centro consumidor no País, e aptidão da região sul do estado para o cultivo de trigo, além das partes de maior altitude, são seus pontos fortes. Não obstante, Minas Gerais também enfrenta problemas de seca e de doenças de difícil controle, caso da brusone, que são responsáveis por frustração de expectativas dos triticultores mineiros em algumas safras, informa o pesquisador.

Hoje, o Brasil produz, com boa vontade, cerca de 50% da sua demanda interna, estimada em 12,5 milhões de toneladas por ano. E, pelas projeções do agronegócio brasileiro, essa situação não deve mudar muito nos próximos 10 anos. “Esse é o nosso desafio: mudar esse cenário. O trigo precisa ser visto como uma nova oportunidade de negócio que o Brasil ainda não explora, tanto no âmbito interno quanto no mercado mundial. Embora seja uma cultura muito antiga em nosso país, ainda não se consolidou como uma cultura economicamente importante e imprescindível nos nossos sistemas de produção. Apesar dos grandes avanços alcançados em tecnologia de produção, na área de genética de cultivares e em práticas de manejo de cultivos, ainda não conseguimos nos firmar no cenário internacional como pais importante na produção e trigo, seguindo o rastro de outros produtos da nossa agricultura, que ocupamos as primeiras posições tanto em produção quanto em exportação. Agricultura é a nossa vocação, nossa economia não pode prescindir do negócio agrícola, por isso precisamos olhar com mais carinho para o trigo”.

Os limitadores para o avanço do trigo no Brasil são, na avaliação do pesquisador, o custo de produção elevado, que precisa ser ajustado para ter competividade com os preços praticados pelo comércio internacional; a dependência de políticas agrícolas – “Precisamos de mais liberalismo e menos Estados”, diz Cunha -; algumas dificuldades em relação ao  ambiente de produção, como o excesso de umidade no Sul e seca e calor no centro do País; e algumas deficiências no setor de logística, em armazenagem segregada de produtos e escoamento da safra das regiões de produção para os centros de consumo e portos.

“Em relação à qualidade tecnológica, que é uma exigência da indústria de moagem e de elaboração e produtos à base de trigo, o trigo brasileiro melhorou muito nos últimos anos. A diferença em relação ao trigo importado não é mais tão acentuada como foi até os anos 1990”, diz ele. “Em resumo, precisamos e temos condições de produzir mais trigo no Brasil, mas com competitividade econômica e orientação ditada pelo mercado internacional”, finaliza Gilberto Cunha.http://sinditrigopr.com.br