Depois de mais de 45 anos de dedicação a entidades associativas ligadas à cadeia produtiva do trigo, Roland Guth, ex-presidente por várias gestões e atual diretor executivo do Sinditrigo-PR, iniciará uma nova etapa – agora voltada mais para a vida pessoal. Ele não fará parte da próxima gestão (novembro de 2019 a novembro de 2022) do Sinditrigo-PR. “Agora é a vez dos mais jovens”, comenta ele, que ajudou a escrever uma parte importante da história da indústria moageira do Paraná.

O associativismo esteve sempre presente na vida de Guth. Além de ter estado à frente dos negócios da família no Moinho Carlos Guth por muitos anos e presidir o Sinditrigo-PR de 1974 a 2006 – entidade à qual continuou participando ativamente até agora ocupando outros cargos – ele foi um dos fundadores da Associação Nacional do Trigo, a Abitrigo, sempre foi incentivador da triticultura no Brasil e também foi diretor da Fiep durante muitos anos. “Foi uma experiência extremamente válida e uma atividade que sempre fiz com muita dedicação e prazer”, diz ele.

Nas últimas décadas, Guth acompanhou, participou e comemorou muitas conquistas que elevaram a produção de trigo e o parque moageiro do Paraná ao patamar mais elevado do país. Mas até os anos 70, o panorama era muito diferente.

 

O passeio do trigo

À época, o governo federal exercia o monopólio sobre o setor trigo, desde a compra do trigo dos produtores, a importação do trigo que faltava, até o estabelecimento decotas que cada moinho poderia moer. O Paraná pertencia á 7ª Região de Consumo, junto com SP. Produzia mais trigo, no entanto, moía menos que o Estado de SP. Ao mesmo tempo, consumia mais farinha do que moía, enquanto São Paulo moía mais do que consumia. O Sinditrigo-PR, sob a gestão de Guth e, como ele faz questão de nominar, com o empenho dos dirigentes da entidade Mário Venturelli e Romeu Massignan, entre outros, demonstrou que havia um desnecessário “passeio do trigo”, pois o trigo colhido no Paraná era moído em SP e voltava em forma de farinha para abastecer o mercado paranaense. “O ICMS era arrecadado em SP e o Estado do Paraná todo perdia com essa transação”, relembra Guth.

Com apoio do então governo de Jayme Canet, o governo federal editou a portaria 35 da Sunab, que permitiu aos moinhos do Paraná moerem trigo suficiente para abastecer o consumo interno, dobrando a produção de farinhas. Guth lembra que foram anos de negociação e envolvimento do governo paranaense e várias entidades representativas de classe, como a Fiep, e da sociedade organizada do Estado. ”Essa luta teve repercussão nacional e deu grande visibilidade e credibilidade ao Sinditrigo-PR perante às autoridades, situação que perdura também nos dias de hoje”, avalia. E complementa: “essa vitória não foi só do Sinditrigo-PR, mas sim de toda a sociedade paranaense”.

 

A era da abertura

Guth também viu de perto os cafezais do Paraná sendo substituídos pelos campos de trigo no inverno, e de soja no verão, após a geada de 1975. O episódio mudaria para sempre a história da triticultura paranaense, antes com uma produção incipiente. Com o suporte da pesquisa, desenvolvida pelas instituições públicas e privadas, chegaram aos campos novas cultivares, melhorando a qualidade e diversidade do trigo para diferenciados usos. Com o incentivo do governo, suporte da pesquisa e os cafezais erradicados, a triticultura do Paraná deu um grande salto e o Estado passou a ser o maior produtor do grão do país.

Os moinhos, no entanto, só podiam produzir dois tipos de farinha: a comum, que representava 60% da produção e era destinada, na maior parte, à fabricação do pão francês ; e a especial, destinada a massas e biscoitos.

Com a abertura do mercado nacional, na era Collor de Mello, Guth acompanhou outro momento marcante da cadeia do trigo paranaense. A indústria moageira paranaense se adaptou rapidamente às novas exigências do mercado, ditadas pelo consumidor que queria mais qualidade e diversidade de produtos – realidade que continua até hoje.

 

Segurança Fiscal

Outra grande conquista elencada por Guth pela entidade de classe da qual sempre participou – o Sinditrigo-PR – , foi a assinatura do decreto isentando do Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) as operações de venda de trigo, de farinha de trigo e de misturas pré-preparadas de farinha de trigo para pães, feitas por estabelecimentos paranaenses com destino a contribuintes de São Paulo. A medida compensou a decisão do Estado de São Paulo e de outros Estados do Sudeste de isentarem seu parque moageiro do imposto e assegurou a competitividade dos moinhos paranaenses.

“Se não houvesse a medida compensatória, pleiteada pelo Sinditrigo-PR, nossos moinhos não seriam competitivos para continuar abastecendo os mercados de outros Estados”, historia Guth. A medida vem sendo reeditada até os dias de hoje. Para Guth, o ideal seria uma reforma tributária. “O que defendemos é que haja uma igualdade tributária de tal sorte que a competitividade e a qualidade dos produtos paranaenses sejam suficientes para que possamos atingir outros mercados. Não queremos favor nenhum. Só queremos poder competir em igualdade de condições”, cita ele.

Atualizações

O Paraná hoje é o maior produtor de farinhas de trigo e vende em torno de 60% de sua produção para outros Estados e isso, analisa Guth, só foi possível graças à produção paranaense de trigo e ampliação do parque moageiro paranaense ocorrida após o fim do monopólio que o governo exercia. “E graças também à atualização tecnológica dos moinhos para que conseguissem produzir farinha para atender às novas exigências do mercado”, destaca ele.

O mercado muda rapidamente e o consumidor, bastante atento, busca novidades o tempo todo, assim como a legislação e a sociedade exigem práticas mais sustentáveis. Portanto, muitos desafios ainda vêm pela frente para o setor. “Mas eu vejo o futuro do parque moageiro do Paraná com muito otimismo. O sindicato está preparado e continua se preparando para atender as nesse, tecnológico, mercadológico e demais demandas. Os presidentes – Marcelo Vosnika e Daniel Kümel – que me sucederam acompanharam de perto e com muita competência as necessidades atuais da indústria moageira paranaense”, diz ele.