No primeiro ano de vigência da última fase de implantação da Resolução 07/2011 da Anvisa, que reduziu aos limites máximos tolerados (LTM) da micotoxina desoxinivalenol (DON), o fator climático foi o principal aliado de toda a cadeia do trigo.

Em 1º de janeiro do ano passado, passou a vigorar os novos LMT de 750 microgramas por quilo ou ppb (partes por bilhão) da micotoxina desoxinivalenol para produtos derivados de trigo (farinha branca, massa, crackers, biscoitos e pão); 1000 ppb na farinha integral, trigo para quibe e farelo de trigo; e 3000 ppb no trigo em grão para posterior processamento.

As micotoxinas são metabólitos secundários produzidos por alguns fungos. Destaca-se que as micotoxinas são substâncias químicas tóxicas, prejudiciais à saúde humana e animal. No trigo, a principal forma de contaminação é o DON, associado à incidência de fungos do complexo Fusarium graminearum, causadores da doença conhecida por giberela ou fusariose, frequente nas lavouras de cereais de inverno no Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Trigos oriundos do hemisfério norte, como EUA e Canadá também podem apresentar este problema. A ocorrência de DON na fase de produção depende, na maioria das vezes, das condições climáticas, sendo favorecida por temperaturas amenas e alta umidade.

“As micotoxinas, de uma forma geral e a DON, especificamente, são epidêmicas. Se temos alta umidade a partir do florescimento e frutificação, as condições ficam mais propícias para sua ocorrência”, esclarece Edenilson Carlos de Oliveira, diretor de Logística e Operações da Coamo. Ele lembra que o trigo, no Paraná, é plantado em abril e maio e colhido em agosto e setembro, períodos mais secos.

“A safra de inverno de 2019 foi tranquila porque a doença que causa a micotoxina não ocorreu, devido a um inverno e primavera com menor quantidade de chuva”, reforça o pesquisador Juliano Luiz de Almeida, especialista de trigo da FAPA (Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária), mantida pela Cooperativa Agrária Agroindustrial de Guarapuava, PR.

Na avaliação de Oliveira, da Coamo, uma forte aliada no combate à doença que afeta o grão é a genética, ou seja, o desenvolvimento de cultivares com maior resistência ás micotoxinas no campo. O critério de seleção, no entanto, leva tempo, mas vem ocorrendo, destaca Oliveira. “Pesquisadores e obtentores da genética estão selecionando cultivares mais resistentes. O principal controle está na genética”, defende.

Mas e se o tempo não tivesse ajudado, como seria? Para Juliano Luiz de Almeida, da FAPA, para os anos com alta umidade existem estratégias para evitar a ocorrência da doença e a diminuição de micotoxinas nos grãos de trigo, mas o custo para produzir trigo com segurança alimentar é mais alto, encarecendo os produtos finais.

No caso da Cooperativa Agrária, ele explica, as estratégias são divididas em pré e pós-colheita. Na pré-colheita, os cuidados começam com a escolha do material genético mais tolerante, e prossegue com o escalonamento da época de semeadura (não colocar todos os ovos na mesma cesta), a utilização de estratégia química (aplicação de fungicidas no momento e dose adequados), e o monitoramento do clima e da ocorrência da doença (Projeto RADAR) no qual os agricultores da Agrária são previamente avisados quando a condição de ocorrência da doença é mais favorável possibilitando o controle químico da doença antes que ocorra a infecção pelo fungo na planta. Outra estratégia é que grande parte dos grãos contaminados pela giberela, que são mais leves, e podem ser expulsos ainda no campo, no momento da colheita com o aumento do vento na colheitadeira.

Na pós-colheita, os cuidados incluem a análise carga a carga no momento da recepção, segregação das cargas contaminadas das não contaminadas, pré-limpeza para expulsar os grãos leves; armazenamento em silos de concreto com aeração; controle de temperatura dos silos; uso do equipamento denominado Sortex, que eliminam os grãos de cores diferentes (grãos giberelados tem coloração salmão, rosa ou branca) e uso do equipamento de “peeling”, que faz o polimento externo dos grãos de trigo eliminando as micotoxinas aderidas.

Desafio para os moinhos

Para Juliano de Almeida, um dos grandes desafios da nova legislação está com os moinhos, uma vez que o grão de trigo pode ser entregue com até 3000 ppb nas cooperativas e cerealistas e nos parques moageiros. Mas os limites permitidos nas farinhas são de 750 ppb a 1.000 ppb.

“Trata-se de uma diferença grande dos limites de DON tolerados no campo e na indústria moageira, onde os limites devem ser baixados, por meio de limpeza, misturas de lotes, separação por cor de grãos e pelo peeling, tecnologias estas de alto custo e perdas com geração de resíduos contaminados”, comenta. “Embora a legislação preconize que o LMT no trigo em grão para posterior processamento seja de 3000 ppb, cabe a cada moageira definir suas normas internas de recepção de grãos para não trazer lotes com problemas para dentro da indústria.”, observa.

Avanços

O pesquisador concorda que novas cultivares, de uma maneira geral, têm maior resistência à Fusariose. Ele alerta, no entanto, que quando o assunto é fungicida é preciso mais atenção, pois alguns produtos podem estressar o fungo. “É preciso usar o fungicida no momento correto, na dose correta, com tecnologia de aplicação apropriada, respeitando o período de carência e assim não estressar o fungo, fato este que pode potencializar a produção de micotoxinas”.

Portanto, a atenção deve ser constante para seguir as normas em vigor e produzir um alimento seguro.