O parque moageiro pode começar a registrar falta de trigo a partir de julho no Paraná. O cenário, de acordo com o consultor agronômico Luiz Carlos Pacheco não é nada promissor. “Não temos praticamente nada de trigo no Estado”, comenta. No Rio Grande do Sul, a situação é semelhante e, em Santa Catarina, já não tem mais trigo, menciona ele.

Já de São Paulo para cima, que depende muito do trigo argentino, a previsão do consultor é que faltem cerca de 2,25 milhões de toneladas para chegar até outubro. ”Eu diria que o Brasil tem trigo até junho. De julho a novembro, vai faltar”, sustenta.

Na opinião de Pacheco, para enfrentar a crise, o parque moageiro deveria moer menos, alongando seus estoques, e também evitando a compra com o preço do trigo em alta, outra grande preocupação do setor no momento. Segundo ele, se for comprar trigo hoje para vender farinha nos preços de hoje, não fecha a conta. “Os moinhos estão operando somente com preço médio de compras que fizeram ao longo do ano, porque os preços atuais dão prejuízo, por mais que aumentem os preços das farinhas mensalmente ao redor de 5%,7% ou 8%”, analisa.

De acordo com boletim T&F Agroeconômica da semana passada, os preços do trigo no RS aumentaram 28% segundo o Cepea,  e 31,25% no mercado físico real, nos últimos 12 meses. “Mas a farinha feita com ele (farinha comum) caiu 4,04% no mesmo período. Quem aguenta pagar 30% a mais pela matéria prima e vender seu produto a -4,04%? O mesmo ocorre no Paraná”, observa.

Preços preocupam

Com o dólar cotado acima dos R$ 5, contudo, as perspectivas são de preços ainda mais altos nos próximos meses, uma grande preocupação para a indústria, que  importa 60% do grão processado nacionalmente.

Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, o grande problema são os preços. De acordo com informações publicadas no site da entidade, Barbosa avalia que não há risco de faltar trigo, uma vez que o mercado internacional pode suprir o país,  mas os efeitos da alta no mercado internacional e do câmbio são preocupantes. “Nunca houve uma situação em que essa vulnerabilidade ficasse tão exposta”, afirma.

Ainda de acordo com informações publicadas no site da Abitrigo, na bolsa de Chicago, o trigo com entrega para maio foi cotado acima dos US$ 200 a tonelada na primeira quinzena de abril, alta de 19,5% ante o registrado em igual período do ano passado. Soma-se a essa valorização a alta do dólar ante o real e os maiores custos de produção no mercado interno, sobretudo após a seca que atingiu o sul do Brasil neste ano.

Para contornar a situação, a entidade solicitou ao governo federal redução da tarifa externa comum para a importação de trigo de países de fora do Mercosul até o final deste ano e a flexibilização para a autorização de importação do cereal russo, hoje restrita a moinhos com acesso a portos.

Na avaliação da Abitrigo, o Brasil precisaria de 1,2 a 1,5 milhão de toneladas de trigo para suprir a demanda interna no segundo semestre, além da cota de importação de 750 mil toneladas por ano sem tarifa de países fora do Mercosul, implementadas em março  pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.