No começo era a seca, agora, a possibilidade de excesso hídrico. Teremos boa produtividade? O preço alto da tonelada de trigo continuará pressionando o setor moageiro?

Na entrevista abaixo para o site do Sinditrigo-PR, o diretor da Moageira Irati Cereais e Trader de Trigo na Gavilon do Brasil, Victor Cabral – que também foi palestrante na segunda edição do Moatrigo Meeting, fala do cenário global e das perspectivas para a safra nacional de trigo.

1 – Como você analisa o cenário global para o trigo?

Victor Cabral – O cenário inicial era extremamente favorável com expectativa de super safra mundial devido ao aumento de área nos principais países exportadores de trigo. Contudo, a perspectiva climática piorou e a seca, principalmente na Europa,  frustrou os volumes esperados.

De qualquer forma, mundialmente há uma expansão na produção russa e uma perspectiva de boa safra na Austrália, o que deve manter o recorde de estoque mundial de 316 milhões de toneladas para 20/21 contra 314 milhões de toneladas 19/20 conforme indicado pelo USDA.

2 – Há motivos para preocupação com a próxima safra nacional?

Victor Cabral – Os primeiros trigos colhidos no Centro Oeste e MG apresentaram boa produtividade e qualidade e tudo vinha se desenhando para uma excelente safra nacional. Alguns pontos de atenção eram a seca no Norte do Paraná e em São Paulo, e nesse sentido o esperado era uma produtividade um pouco menor apenas dessas regiões que sofreram com a falta de água.

Contudo, nesta última semana o cenário mudou. A meteorologia está apontando um excesso hídrico para o Paraná, o que pode ser benéfico para o trigo mais tardio porém impacta diretamente o primeiro trigo a ser colhido na segunda quinzena de agosto e primeira semana de setembro. Além disso, há uma massa polar com previsão de chegada ao Brasil ainda esta semana que pode trazer geadas no Paraná e consequentemente impactar a produção do trigo. Porém segue sendo uma safra historicamente grande.

3 – O que os moinhos podem esperar para a próxima temporada?

Victor Cabral – Mais uma vez o dólar é o grande fiel da balança para a tomada de decisão dos moinhos. Nos níveis atuais, o câmbio dá sustentação para o preço do trigo manter-se em patamares mais elevados, mas é importante ressaltar que havendo uma boa safra na região sul, a tendência é que o preço sofra pressão pelo lado da oferta e com isso o valor por tonelada ceda.

O cenário desenha mais um cabo de guerra entre oferta e demanda, já que safras maiores tendem a não remunerar o carrego financeiro e o grande volume a ser colhido deveria derrubar os preços.

4 – Como você analisa a evolução da produção nacional?

Victor Cabral – Temos observado uma melhoria genética no trigo nacional que faz com que produtores e comerciantes tenham maior segurança em realizar negociações futuras de trigo. O mercado de exportação do trigo no Rio Grande do Sul é um exemplo, já que para a safra 2020 espera-se mais de 800 mil toneladas de trigo escoados pelos terminais gaúchos sendo que 100% deste volume foi realizado de forma antecipada. Considerando os números de safra da Conab, isso representaria cerca de 30% de comercialização.

5 – É otimista com a produção de trigo no cerrado? Por quê?

Victor Cabral – Há espaço para ampliação da produção nacional de trigo sim, a grande questão é a viabilidade financeira para o produtor em relação às demais culturas. Como é amplamente divulgado, o Brasil consome o dobro do que produz, o que torna possível ampliar a produção. Além disso, a exportação vem se firmando no Brasil como uma alternativa de liquidez para os produtores.

6 – Por que do tema Safra 20/21 – o desafio recomeça, exposto na segunda edição do Workshop Moatrigo? É muito desafiador o setor no país?

Victor Cabral – O mercado de grãos é desafiador a cada safra. Mudanças climáticas, cenário internacional, câmbio e tributos são alguns dos pontos que os moinhos e produtores de trigo tem que levar em consideração antes de comercializar o trigo. A dinâmica muda a cada semana, portanto é muito importante todos acompanharem essas mudanças.