Os alimentos à base de trigo, como pães, macarrão, biscoitos e bolos, estão presentes em, praticamente, 100% dos lares brasileiros e são fundamentais para a composição da cesta básica da população. Do total de trigo processado pelos moinhos brasileiros, mais da metade é importado, porque o Brasil não é autossuficiente na produção do cereal. E na busca da redução desta dependência do mercado externo, a Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo) elaborou e vem debatendo um projeto de Política Nacional do Trigo, que visa aumentar, gradualmente,  a produção, diversificação da área de plantio e variedade de semente.

“A pandemia da Covid-19 deixou evidente algumas vulnerabilidades da nossa economia e, no campo dos alimentos podemos dizer que o trigo é a mais latente delas, tendo em vista que ainda somos muito dependentes da importação do trigo internacional. A situação vivida por nós deixa clara a dificuldade do fornecimento do grão para atender as necessidades do mercado nacional, bem como a de compra por conta do custo alto da matéria-prima”, comenta o presidente-executivo da Abitrigo, Rubens Barbosa .

Em entrevista ao Sinditrigo-PR, Barbosa relembrou que, há cerca de dois anos, a entidade começou a trabalhar o projeto, com participação da cadeia do trigo e também da Embrapa, que fez a sugestão de expandir a área de plantio para o norte do Cerrado, uma vez que o problema da incidência da brusone está controlado e novas variedades de cultivares de trigo estão sendo desenvolvidas.

O projeto foi apresentado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. “O Mapa quer aumentar a produção interna. Isso não quer dizer que o produtor não possa exportar e que os moinhos não possam continuar importando certas variedades que necessitem”, ressalva Barbosa. Na sua avaliação, após a pandemia evidenciar a questão da segurança alimentar, tanto o setor público quanto o privado estão mais atentos e trabalhando unidos em busca da redução da dependência que o Brasil tem do trigo internacional.

Para ele, com apoio do Mapa, em 10 anos o país poderá ter aumento significativo da produção. “Havia uma inércia dos importadores e dos produtores, porque não havia essa consciência da vulnerabilidade do setor. Mas agora, acredito que os produtores vão aumentar área e diversificar, se o Mapa apoiar”, observa.

Entre os pontos da proposta do setor, Barbosa destaca alguns que demandam mais atenção do Mapa, como facilitar a convergência regulatória internacional, atualizar o regulamento técnico de classificação do trigo, reavaliar a gestão de recursos humanos nos serviços oficiais, fomentar a regionalização e especialização da produção, entre outros.

Reflexos para o consumidor final

Um dos principais reflexos quando há uma variação brusca do dólar é o reajuste do custo em relação aos produtos da cesta ABIMAPI (influência cambial) pelo aumento da farinha de trigo – ingrediente básico das categorias representadas pela Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados, segundo informa Cláudio Zanão, presidente-executivo da entidade.

Ele reforça que o Brasil produz menos da metade do trigo consumido e precisa importar grandes quantidades do grão de países do MERCOSUL – sobretudo da Argentina –, do Canadá e dos Estados Unidos.

“A redução da dependência do Brasil com a compra do trigo do exterior abaixaria os nossos preços para o consumidor final. O país pode ter uma produção ainda maior com o crescimento e desenvolvimento de áreas de cultivo direcionadas, por exemplo”, analisa.

Ele informa que, nas massas, em média, 70% do custo é de farinha. Nos biscoitos, em média, o peso é de 30%, e nos pães e bolos industrializados, em média, de 60%. Sendo assim, qualquer variação no preço do trigo tem impacto direto para os fabricantes.

“No 1º quadrimestre iniciamos um repasse com um reajuste médio de 12%. De todo modo, as indústrias estão sempre preparadas com estoque (de dois a três meses, dependendo de cada fabricante) de trigo e produto acabado e todo e qualquer aumento tende a ser gradual, pois não há espaço para elevar os preços de uma só vez para o consumidor final”, comenta.