A expectativa do setor moageiro de que o preço do trigo começasse a dar sinais de queda no final da entressafra, não está se confirmando. Os preços continuam elevados e a percepção é de que ainda não chegou ao teto.

“Tínhamos a expectativa de uma gradual redução dos preços, e o que está acontecendo é uma manutenção dos preços altos do final da entressafra. Isto não é algo inédito, mas demanda um bom processo de comunicação com o mercado”, menciona Valdomiro Bocchese da Cunha, presidente do Moinho Nordeste.

A valorização da moeda norte-americana é um dos fatores que impactam e desequilibram os preços do mercado interno, já que o país é fortemente dependente do grão importado. Também contribuíram para o atual cenário a alta da soja e do milho, acrescenta o engenheiro-agrônomo e gerente de Suprimentos do Moinho Globo, Rui Marcos Souza. E tudo isso acontecendo num momento em que se espera uma boa safra de trigo no Paraná.

Novas regiões têm feito experimentos de sucesso com o plantio do trigo, mas o Brasil está longe de chegar perto do que precisa para atender o mercado interno. Mesmo com a perspectivas de aumento de safra de trigo de 2020/21 em 300 mil toneladas, elevando a produção nacional a 5,5 milhões de toneladas, ainda haveria um déficit alto para atender a demanda – de mais de 12 milhões de toneladas.

Na avaliação de Valdomiro, as moageiras, mesmo com o valor da matéria prima ainda em alta, devem manter os preços, podendo gerar um aumento dependendo do desenrolar da colheita e da taxa de câmbio. O setor aguarda a colheita final das safras do Paraná, Rio Grande do Sul e Argentina e de como ficará a taxa de câmbio para avaliar os próximos meses. “O que está sinalizando até o momento é a manutenção dos custos e dos preços em níveis elevados”, comenta Valdomiro.

O mesmo pensa Rui Souza. Ele comenta que, no prazo de apenas dois meses, a tonelada do trigo subiu de R$ 950,00 para R$ 1.450,00. “Nesta época do ano, historicamente, o trigo baixaria por estarmos em plena colheita. Ninguém acreditava que isso fosse possível”, comenta o gerente. Na avaliação dele, ainda há margem para ajuste nos preços praticados atualmente. Ele observa que há grande desproporcionalidade entre os preços do trigo e da farinha e que os moinhos terão que fazer ajustes nos valores para fazer frente à reposição dos estoques.

Qualidade

Em relação à qualidade do trigo recebido nas moageiras, tanto Valdomiro quanto Rui avaliam como boa. Segundo Valdomiro, ano a ano a qualidade vem melhorando, inclusive do trigo gaúcho que já é utilizado em boa escala no Paraná.

Rui destaca o trabalho da pesquisa nacional. “A genética vem melhorando ano a ano e a qualidade do trigo nacional, de uma forma geral, está muito boa”, menciona.